Céptico. Ou nem tanto?

Meu comentário
Neste trecho, ainda da obra As pequenas memórias, Saramago expõe como talvez tenha sido, nesta época, a sua adoção da linha céptica em relação à crença religiosa. Ora ele troça dos seres míticos, ora ele atribui a eles a intervenção do próprio salvamento de alguma situação que poderia ter se dado com um final muito pior. Nos deixa, creio eu, uma grande dúvida da sua alma, como lhe convém fazer jogar com a inteligência e percepção livre de cada um de nós.

Transcrição do livro
"Realidade também, e das duríssimas, foi aquele trombalhão que dei na Avenida Casal Ribeiro, ali ao lado da Rua Fernão Lopes, em dias que deveriam ser propícios tanto à caridade humana como à benevolência celestial, pois era por ocasião do Santo António, defensor das causas justas e protector por excelência dos olvidados, onde quer que se encontrem. A não ser (hipótese a considerar) que a bruta queda tenha sido consequência de uma mesquinha vingança da santa personagem quando percebeu que o tostãozinho que eu andava a pedir aos transeuntes se destinava à compra de rebuçados e subsequente satisfação do pecado da gula, e não ao culto do altarzinho armado à entrada da porta do prédio, chamariz para as boas almas, piedosas ou laicas. Foi o lamentável caso de que andava eu, em competição com colegas da vizinhança, a entoar a ladainha de sempre: 'Um tostãozinho para o Santo António, um tostãozinho para o Santo António', quando vejo passar no outro lado da Avenida Casal Ribeiro um senhor de avançada idade, trajado de escuro, de chapéu e bengala, como não era raro encontrar-se pelas ruas de Lisboa naqueles primitivos tempos. Vê-lo e largar a correr para me antecipar a uma ofensiva dos concorrentes que andavam na mesma safra, foi obra de um santiámen. A avenida estava em obras, o pavimento tinha sido levantado (creio que andavam a substituir por alcatrão as velhas pedras irregulares de basalto), e o que havia no chão era uma brita grossa capaz de esfolar um crocodilo. Aí tropecei aí caí, aí deitei abaixo um joelho, e quando por fim consegui levantar-me, já com sangue a escorrer-me pela perna abaixo, o senhor de idade olhou para mim, fez cara de fingida pena e continuou o seu passeio talvez a pensar nos netos queridos, tão diferentes destes rapazes da rua sem educação. A chorar por causa das dores no joelho, mas também por causa da humilhação que tinha sido ir cair aos pés de uma pessoa que não havia feito o menor gesto para me ajudar a levantar, lá me arrastei até casa, onde minha mãe me curou com a inevitável tintura de iodo e uma ligadura apertadíssima que durante uns dias me deixou sem serventia as dobradiças do joelho. É bem possível, agora que o estou pensando, que o penoso sucesso tivesse sido a causa de haver abandonado pelo caminho a minha incipiente educação religiosa. Morava no mesmo prédio, salvo erro no segundo andar esquerdo, uma família muito católica (pai, mãe, filho e filha), e a senhora da casa convenceu a Senhora Piedade a permitir que me iniciassem nos segredos da igreja em geral e da eucaristia em particular. Em suma, queriam levar-me à missa. Minha mãe disse sim minha senhora, agradeceu a atenção que os simpáticos e distintos vizinhos estavam a dar ao filho, mas, conhecendo-a como depois a conheci, céptica por indiferença, salvo nos últimos tempos de vida quando, já viúva, passou a frequentar a igreja com as amigas do bairro, calculo que o consentimento foi dado com o mesmo empenho com que me teria deixado ir à praia com aqueles ou outros vizinhos. O problema que tenho a resolver agora é se isto sucedeu antes ou depois da queda. Fosse como fosse, e apesar de me sentarem com eles no banco da frente, a minha assistência à igreja, uma ou duas vezes, não havia prometido muito. Quando o sacristão tocava a sineta e os fiéis baixavam obedientes a cabeça, não resisti a torcer ligeiramente o pescoço e espreitar com dissímulo para ver o que é que se estaria a passar ali que não devesse ser visto. Voltando ao problema, à queda, se ela sucedeu antes significa que quando me levaram à missa eu já iria de pé atrás, decepcionado com um santo e disposto a acreditar que todos os outros eram iguais. Se foi depois que aconteceu, então o estatelamento podia ser entendido como um castigo pelo meu abandono do recto caminho que deveria levar-me ao paraíso, hipótese em que Deus se teria portado vergonhosamente, como um intolerante de marca maior que se pagava à bruta de uma pequena desfeita, sem ter em conta os meus poucos anos de aprendiz de pagão. Nunca o saberei. Não devo esquecer, porém, que, ao menos uma vez as potestades celestes velaram por mim e por dois companheiros meus também residentes na Rua Fernão Lopes. Tinha encontrado em casa, já não me lembro como, um cartucho de caça que levei para mostrar aos amigos, e não só para mostrar, pois, tremendo de excitação, como conspiradores, reunimo-nos numa escada próxima e abrimo-lo para extrair o que havia dentro, a pólvora e os grãos de chumbo. Sentados nos degraus de pedra da entrada, rodeávamos o montinho de pólvora para ver o que acontecia se lhe chegássemos um fósforo. A deflagração foi modesta, mas suficiente para que apanhássemos um susto. E se não ficámos com a cara ou as mãos queimados foi certamente porque Santo António, ou um dos seus muitos colegas do empíreo, interpõs entre nós e a explosão a sua mão taumatúrgica e providencial. Assim como assim, antes a ferida do joelho."

Referência
SARAMAGO, José. As pequenas memórias. São Paulo:Companhia das Letras, 2006. p. 62-65.

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