Meu comentário
Neste trecho do O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Saramago combina dois personagens inigmáticos para a humanidade, com histórias e controvérsias que os cercam, em uma situação tipicamente comum, mas, para observadores atentos tráz questões que o homem busca entender desde quando conseguiu desenvolver a compreensão e curiosidade. Talvez demore muito ainda, pois faz parte da sua evolução, e cada coisa acontece a seu tempo, nem cedo, nem tarde, para obter a resposta que muitos, por ignorância, por medo e até por tirania, pensa que já a tem.
Transcrição do livro
"A noite ainda tem muito para durar. A candeia de azeite, dependurada de um prego ao lado da porta, está acesa, mas a chama, como uma pequena amêndoa luminosa pairando, mal consegue, trémula, instável, suster a massa escura que a rodeia e enche de cima a baixo a casa, até aos últimos recantos, lá onde as trevas, de tãos espessas, parecem ter-se tornado sólidas. José acordou em sobressalto, como se alguém, bruscamente, o tivesse sacudido pelo ombro, mas teria sido ilusão de um sonho logo desvanecido, que nesta casa só ele vive, e a mulher, que não se mexeu, e dorme. Nâo é seu costume despertar assim a meio da noite, em geral não acorda antes de larga frincha da porta começar a emergir do escuro,cinzenta e fria. Inúmeras vezes pensara que deveria tapá-la, nada mais fácil para um carpinteiro, ajustar e pregar uma simples régua de madeira que sobrasse duma obra, porém, a tal ponto se tinha habituado a encontrar na sua frente, mal abria os olhos, aquela vara vertical de luz, anunciadora do dia, que acabara por imaginar, sem ligar ao absurdo da ideia, que, faltando ela, poderia não ser capaz de sair das trevas do sono, as do seu corpo e as do mundo. A frincha da porta fazia parte da casa, como as paredes ou o tecto, como o forno ou o chão de terra apisoada. Em voz baixa, para não acordar a mulher, que continuava a dormir,pronunciou a primeira benção do dia, aquela que sempre deve ser dita quando se regressa do misterioso país do sono, Graças te dou, Senhor, nosso Deus, rei do universo, que pelo poder da tua misericórdia, assim me restituis, viva e constante, a minha alma. Talvez por não se encontrar igualmente desperto em cada um dos seus cinco sentidos, se é que, então, nesta época de que vimos falando, não estavam as pessoas ainda a aprender alguns deles ou, pelo contrário, a perder outros que hoje nos seriam úteis, José olhava-se a si mesmo como se fosse acompanhando, a distância, a lenta ocupação do seu corpo por uma alma que aos poucos estivesse regressando, igual a fios de água que, avançando sinuosos pelos caminhos das regueiras, penetrassem a terra até às mais fundas raízes, transportando a seiva, depois, pelo interior dos caules e das folhas. E por ver quão trabalhoso era este regresso, olhando a mulher, a seu lado, teve um pensamento que o perturbou, que ela, ali adormecida, era verdadeiramente um corpo sem alma, que a alma não está presente no corpo que dorme, ou então não faz sentido que agradeçamos todos os dias a Deus por todos os dias no-la restituir quando acordamos, e nesta altura uma voz dentro de si perguntou, O que é que em nós sonha o que sonhamos, Porventura os sonhos são as lembranças que a alma tem do corpo, pensou a seguir, e isto era uma resposta. Maria moveu-se, acaso a alma dela estaria ali por perto, já dentro de casa, mas no fim não despertou, apenas andaria afãs de sonho, e, tendo soltado um suspiro fundo, entrecortado como um soluço, chegou-se para o marido, num movimento sinuoso, porém inconsciente, que jamais ousaria quando acordada. José puxou o lençol grosso e áspero para os ombros e aconchegou melhor o corpo na esteira, sem se afastar. Sentiu o calor da mulher, carregado de odores, como de uma arca fechada onde tivessem secado ervas, lhe ia penetrando pouco a pouco o tecido da túnica, juntando-se ao calor do seu próprio corpo. Depois, deixando descer devagar as pálpebras, esquecido já de pensamentos, desprendido da alma, abandonou-se ao sono que voltava."
Referência
SARAMAGO, José. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo:Companhia das Letras, 2002.
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A história mais instigante da humanidade
Meu comentário
Contar e recontar a história mais instigante da humanidade não é tarefa para qualquer um, mas também é de todos. Porém, é preciso muita sensibilidade e capacidade de entendê-la sob todos os ângulos em que ela se apresentou até agora e continuará se mostrando por outros novos que somente poderão ser reconhecidos e vistos com a contínua evolução do homem, se assim o homem quiser. E José Saramago, para a nossa sorte, descobriu mais um novo ângulo com a sua obra O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
José Paulo Paes escreveu sobre a obra de Saramago:
"Essa tradição ininterrupta porque viva, viva porque ininterrupta,...
... José Saramago nos conta mais uma vez a mesma história que vem sendo contada já tantos séculos. A mesma? Sim, se se tiver em vista tão só os personagens e os sucessos da fábula. Não, se se atentar para a nova carnadura de que aqui se revestem. Interessado menos na onipotência do divino que na frágil mas tenaz resistência do humano, a arte magistral de Saramago excele no dar corpo às preliminares e à culminância do drama da Paixão, presentificando-lhes as cores, cheiros, sons, movimentos, esmiuçando-lhes as ambigüidades e implicações em busca de significados recônditos por sob os ostensivos. Leiam-se a título de exemplo de presentificação, as páginas de bravura que pintam os sacrifícios de sempre no Templo de Jerusalém. E onde melhor exemplo de esmiuçamento crítico que as páginas de socrática agudeza e voltaireana ironia acerca do debate travado por Cristo com Deus e o Diabo na barca perdida em meio ao nevoeíro de quarenta dias?
Mas é bem de ver que nessa agudeza não há soberba de espírito, nem há desencanto do mundo nessa ironia: há lucidez e compreensão do humano, demasiado humano."
Referência
SARAMAGO, José. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo:Companhia das Letras, 2002.
Contar e recontar a história mais instigante da humanidade não é tarefa para qualquer um, mas também é de todos. Porém, é preciso muita sensibilidade e capacidade de entendê-la sob todos os ângulos em que ela se apresentou até agora e continuará se mostrando por outros novos que somente poderão ser reconhecidos e vistos com a contínua evolução do homem, se assim o homem quiser. E José Saramago, para a nossa sorte, descobriu mais um novo ângulo com a sua obra O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
José Paulo Paes escreveu sobre a obra de Saramago:
"Essa tradição ininterrupta porque viva, viva porque ininterrupta,...
... José Saramago nos conta mais uma vez a mesma história que vem sendo contada já tantos séculos. A mesma? Sim, se se tiver em vista tão só os personagens e os sucessos da fábula. Não, se se atentar para a nova carnadura de que aqui se revestem. Interessado menos na onipotência do divino que na frágil mas tenaz resistência do humano, a arte magistral de Saramago excele no dar corpo às preliminares e à culminância do drama da Paixão, presentificando-lhes as cores, cheiros, sons, movimentos, esmiuçando-lhes as ambigüidades e implicações em busca de significados recônditos por sob os ostensivos. Leiam-se a título de exemplo de presentificação, as páginas de bravura que pintam os sacrifícios de sempre no Templo de Jerusalém. E onde melhor exemplo de esmiuçamento crítico que as páginas de socrática agudeza e voltaireana ironia acerca do debate travado por Cristo com Deus e o Diabo na barca perdida em meio ao nevoeíro de quarenta dias?
Mas é bem de ver que nessa agudeza não há soberba de espírito, nem há desencanto do mundo nessa ironia: há lucidez e compreensão do humano, demasiado humano."
Referência
SARAMAGO, José. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo:Companhia das Letras, 2002.
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