Meu comentário
Para entender Saramago, retirado do fundo dos fundos pelas suas próprias mãos (ou suas próprias palavras, que têm mais força), deve-se ler, com calma e muita cautela, o seu discurso do seu prêmio Nobel de Literatura de 1998. Se souber e conseguir ter paciência e generosidade se é capaz de descobrir muitos josés samaragos.
clique aqui para ler o discurso.
Filosofia, religião e a morte
Meu comentário
Continuando no livro As intermitências da morte, segue um diálogo entre filósofos e religiosos a respeito da questão da não-morte mais e as suas implicações.
Transcrição do livro
"Ora, sendo esta, pública e notoriamente, o único instrumento de lavoura de que deus parecia dispor na terra para lavrar os caminhos que deveriam conduzir ao seu reino, a conclusão óbvia e irrebatível é de que toda a história santa termina inevitavelmente num beco sem saída. Este ácido argumento saiu da boca do mais velho dos filósofos pessimistas, que não ficou por aqui e acrescentou acto contínuo, As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca. Os delegados das religiões não se deram ao incómodo de protestar. Pelo contrário, um deles, conceituado integrante do sector católico, disse, Tem razão, senhor filósofo, é para isto mesmo que nós existimos, para que as pessoas levem toda a vida com o medo dependurado ao pescoço e, chegada a sua hora, acolham a morte como uma libertação, O paraíso, Paraíso ou inferno, ou cousa alguma, o que se passe depois da morte importa-nos muito menos que o que geralmente se crê, a religião, senhor filósofo, é um assunto da terra, não tem nada que ver com o céu, Não foi o que nos habituaram a ouvir, Algo teríamos que dizer para tornar atractiva a mercadoria, Isso quer dizer que em realidade não acreditam na vida eterna, Fazemos de conta."
Referência
SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo:Companhia das Letras, 2005. p.36.
Continuando no livro As intermitências da morte, segue um diálogo entre filósofos e religiosos a respeito da questão da não-morte mais e as suas implicações.
Transcrição do livro
"Ora, sendo esta, pública e notoriamente, o único instrumento de lavoura de que deus parecia dispor na terra para lavrar os caminhos que deveriam conduzir ao seu reino, a conclusão óbvia e irrebatível é de que toda a história santa termina inevitavelmente num beco sem saída. Este ácido argumento saiu da boca do mais velho dos filósofos pessimistas, que não ficou por aqui e acrescentou acto contínuo, As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca. Os delegados das religiões não se deram ao incómodo de protestar. Pelo contrário, um deles, conceituado integrante do sector católico, disse, Tem razão, senhor filósofo, é para isto mesmo que nós existimos, para que as pessoas levem toda a vida com o medo dependurado ao pescoço e, chegada a sua hora, acolham a morte como uma libertação, O paraíso, Paraíso ou inferno, ou cousa alguma, o que se passe depois da morte importa-nos muito menos que o que geralmente se crê, a religião, senhor filósofo, é um assunto da terra, não tem nada que ver com o céu, Não foi o que nos habituaram a ouvir, Algo teríamos que dizer para tornar atractiva a mercadoria, Isso quer dizer que em realidade não acreditam na vida eterna, Fazemos de conta."
Referência
SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo:Companhia das Letras, 2005. p.36.
Governo, igreja e a morte
Meu comentário
Em As Intermitências da Morte um país imaginado se depara com o fim do morrer, com a aparente aposentadoria da morte. Por mais destinadas que fossem as situações, as pessoas não morriam, permaneciam, como escreve o próprio autor, suspensas. Sem explicação e muito menos solução, o governo estava com suas preocupações lógicas de como irá ter que reestruturar a sociedade para esta novidade inesperada, enquanto que os religiosos, em representação do cardeal, se vê em piores lençóis. O primeiro, o governo, ainda tinha explicação e fatos que davam razão lógica, plausível e palpável às preocupações, porém, a igreja e a religião se viam encostadas na parede, e com a faca no pescoço, pois nada tinham de concreto a oferecer de fato (e parece que nunca tiveram na verdade) a não ser a fé, e bem abstrata, que nunca deveria ser contestada por obediência, por ignorância ou por medo de passar todos os dias eternos no fogo mais quente do inferno, mas, enfim, sem provas para os que anunciavam que era tudo verdade e para os que resolviam crer sem questionar. Segue o trecho do livro desta disputa poderosa entre o governo e a religião, cada qual com as suas razões, lícitas ou não.
Transcrição do livro
"No comunicado oficial, finalmente difundido já a noite ia adiantada, o chefe do governo ratificava que não se haviam registrado quaisquer defunções em todo o país desde o início do novo ano, pedia comedimento e sentido de responsabilidade nas avaliações e interpretações que do estranho facto viessem a ser elaboradas, lembrava que não deveria excluir-se a hipótese de se tratar de uma casualidade fortuita, de uma alteração cósmica meramente acidental e sem continuidade, de uma conjunção excepcional de coincidências intrusas na equação espaço-tempo, mas que, pelo sim, pelo não, já se haviam iniciado contactos exploratórios com os organismos internacionais competentes em ordem a habilitar o governo a uma acção que seria tanto mais eficaz quanto mais concertada pudesse ser. Enunciadas estas vaguidades pseudocientifícas, destinadas, também elas, a tranquilizar, pelo incompreensível, o alvoroço que reinava no país, o primeiro-ministro terminava afirmando que o governo se encontrava preparado para todas as eventualidades humanamente imagináveis, decidido a enfrentar com coragem e com o indispensável apoio da população os complexos problemas sociais, económicos, políticos e morais que a extinção definitiva da morte inevitavelmente suscitaria, no caso, que tudo parece indicar como previsível, de se vir a confirmar. Aceitaremos o repto da imortalidade do corpo, exclamou em tom arrebatado, se essa for a vontade de deus, a quem para todo o sempre agradeceremos, com as nossas orações, haver escolhido o bom povo deste país para seu instrumento. Significa isto, pensou o chefe do governo ao terminar a leitura, que estamos metidos até os gorgomilos numa camisa-de-onze-varas. Nâo podia ele imaginar até que ponto o colarinho lhe iria apertar. Ainda meia hora não tinha passado quando, já no automóvel oficial que o levava a casa, recebeu uma chamada do cardeal, Boas noites, senhor primeiro-ministro, Boas noites, eminência, Telefono-lhe para lhe dizer que me sinto profundamente chocado, Também eu, eminência, a situação é muito grave, a mais grave de quantas o país teve de viver até hoje, Não se trata disso, De que se trata então, eminência, É a todos os respeitos deplorável que, ao redigir a declaração que acabei de escutar, o senhor primeiro-ministro não se tenha lembrado daquilo que constitui o alicerce, a viga mestra, a pedra angular, a chave de abóbada da nossa santa religião, Eminência, perdoe-me, temo não compreender aonde quer chegar, Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressureição, e sem ressureição não há igreja, Ó diabo, Não percebi o que acaba de dizer, repita, por favor, Estava calado, eminência, provavelmente terá sido alguma interferência causada pela electricidade atmosférica, pela estática, ou mesmo um problema de cobertura, o satélite às vezes falha, dizia vossa eminência que, Dizia o que qualquer católico, e o senhor não é uma excepção, tem obrigação de saber, que sem ressureição não há igreja, além disso, como lhe veio à cabeça que deus poderá querer o seu próprio fim, afirmá-lo é uma idéia absolutamente sacrílega, talvez a pior das blasfémias, Eminência, eu não disse que deus queria o seu próprio fim, De facto, por essas exactas palavras, não, mas admitiu a possibilidade de que a imortalidade do corpo resultasse da vontade de deus, não será preciso ser-se doutorado em lõgica transcendental para perceber que quem diz uma cousa, diz a outra, Eminência, por favor, creia-me, foi uma simples frase de efeito destinada a impressionar, um remate de discurso, nada mais, bem sabe que a política tem destas necessidades, Também a igreja as tem, senhor primeiro-ministro, mas nós ponderamos muito antes de abrir a boca, não falamos por falar, calculamos os efeitos à distância, a nossa especialidade, se quer que lhe dê uma imagem para compreender melhor, é a balística, Estou desolado, eminência, No seu lugar também estaria. Como se estivesse a avaliar o tempo que a granada levaria a cair, o cardeal fez uma pausa , depois, em tom mais suave, mais cordial, continuou, Gostaria de saber se o senhor primeiro-ministro levou a declaração ao conhecimento de sua majestade antes de a ler aos meios de comunicação social, Naturalmente, eminência, tratando-se de um assunto de tanto melindre, E que disse o rei, se não é segredo de estado, Pareceu-lhe bem, Fez algum comentário ao terminar, Estupendo, Estupendo, quê, Foi o que sua majestade me disse, estupendo, Quer dizer que também blasfemou, Não sou competente para formular juízos dessa natureza, eminência, viver com os meus próprios erros já me dá trabalho suficiente, Terei de falar ao rei, recordar-lhe que, em uma situação como esta, tão confusa, tão delicada, só a observância fiel e sem desfalecimento das provadas doutrinas de nossa santa madre igreja poderá salvar o país do pavoroso caos que nos vai cair em cima, Vossa eminência decidirá, está no seu papel, ........ Estou quase a chegar a casa, eminência, mas, se me dá licença, ainda gostaria de lhe pôr uma breve questão, Diga, Que irá fazer a igreja se nunca mais ninguém morrer, Nunca mais é demasiado tempo, mesmo tratando-se da morte, senhor primeiro-ministro, Creio que não me respondeu, eminência, Devolvo-lhe a pergunta, que vai fazer o estado se nunca mais ninguém morrer, O estado tentará sobreviver, ainda que eu muito duvide de que venha a conseguir, mas a igreja, A igreja, senhor primeiro-ministro, habituou-se de tal maneira às respostas eternas que não posso imaginá-la a dar outras, Ainda que a realidade as contradiga, Desde o principio que nós não temos feito outra cousa que contradizer a realidade, e aqui estamos, Que dirá o papa, Se eu fosse, perdoe-me deus a estulta vaidade de pensar-me tal, mandaria pôr imediatamente em circulação uma nova tese, a da morte adiada, Sem mais explicações, À igreja nunca se lhe pediu que explicasse fosse que fosse, a nossa outra especialidade, além da balística, tem sido neutralizar, pela fé, o espírito curioso,...."
Referência
SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo:Companhia das Letras, 2005. p.17-20.
Em As Intermitências da Morte um país imaginado se depara com o fim do morrer, com a aparente aposentadoria da morte. Por mais destinadas que fossem as situações, as pessoas não morriam, permaneciam, como escreve o próprio autor, suspensas. Sem explicação e muito menos solução, o governo estava com suas preocupações lógicas de como irá ter que reestruturar a sociedade para esta novidade inesperada, enquanto que os religiosos, em representação do cardeal, se vê em piores lençóis. O primeiro, o governo, ainda tinha explicação e fatos que davam razão lógica, plausível e palpável às preocupações, porém, a igreja e a religião se viam encostadas na parede, e com a faca no pescoço, pois nada tinham de concreto a oferecer de fato (e parece que nunca tiveram na verdade) a não ser a fé, e bem abstrata, que nunca deveria ser contestada por obediência, por ignorância ou por medo de passar todos os dias eternos no fogo mais quente do inferno, mas, enfim, sem provas para os que anunciavam que era tudo verdade e para os que resolviam crer sem questionar. Segue o trecho do livro desta disputa poderosa entre o governo e a religião, cada qual com as suas razões, lícitas ou não.
Transcrição do livro
"No comunicado oficial, finalmente difundido já a noite ia adiantada, o chefe do governo ratificava que não se haviam registrado quaisquer defunções em todo o país desde o início do novo ano, pedia comedimento e sentido de responsabilidade nas avaliações e interpretações que do estranho facto viessem a ser elaboradas, lembrava que não deveria excluir-se a hipótese de se tratar de uma casualidade fortuita, de uma alteração cósmica meramente acidental e sem continuidade, de uma conjunção excepcional de coincidências intrusas na equação espaço-tempo, mas que, pelo sim, pelo não, já se haviam iniciado contactos exploratórios com os organismos internacionais competentes em ordem a habilitar o governo a uma acção que seria tanto mais eficaz quanto mais concertada pudesse ser. Enunciadas estas vaguidades pseudocientifícas, destinadas, também elas, a tranquilizar, pelo incompreensível, o alvoroço que reinava no país, o primeiro-ministro terminava afirmando que o governo se encontrava preparado para todas as eventualidades humanamente imagináveis, decidido a enfrentar com coragem e com o indispensável apoio da população os complexos problemas sociais, económicos, políticos e morais que a extinção definitiva da morte inevitavelmente suscitaria, no caso, que tudo parece indicar como previsível, de se vir a confirmar. Aceitaremos o repto da imortalidade do corpo, exclamou em tom arrebatado, se essa for a vontade de deus, a quem para todo o sempre agradeceremos, com as nossas orações, haver escolhido o bom povo deste país para seu instrumento. Significa isto, pensou o chefe do governo ao terminar a leitura, que estamos metidos até os gorgomilos numa camisa-de-onze-varas. Nâo podia ele imaginar até que ponto o colarinho lhe iria apertar. Ainda meia hora não tinha passado quando, já no automóvel oficial que o levava a casa, recebeu uma chamada do cardeal, Boas noites, senhor primeiro-ministro, Boas noites, eminência, Telefono-lhe para lhe dizer que me sinto profundamente chocado, Também eu, eminência, a situação é muito grave, a mais grave de quantas o país teve de viver até hoje, Não se trata disso, De que se trata então, eminência, É a todos os respeitos deplorável que, ao redigir a declaração que acabei de escutar, o senhor primeiro-ministro não se tenha lembrado daquilo que constitui o alicerce, a viga mestra, a pedra angular, a chave de abóbada da nossa santa religião, Eminência, perdoe-me, temo não compreender aonde quer chegar, Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressureição, e sem ressureição não há igreja, Ó diabo, Não percebi o que acaba de dizer, repita, por favor, Estava calado, eminência, provavelmente terá sido alguma interferência causada pela electricidade atmosférica, pela estática, ou mesmo um problema de cobertura, o satélite às vezes falha, dizia vossa eminência que, Dizia o que qualquer católico, e o senhor não é uma excepção, tem obrigação de saber, que sem ressureição não há igreja, além disso, como lhe veio à cabeça que deus poderá querer o seu próprio fim, afirmá-lo é uma idéia absolutamente sacrílega, talvez a pior das blasfémias, Eminência, eu não disse que deus queria o seu próprio fim, De facto, por essas exactas palavras, não, mas admitiu a possibilidade de que a imortalidade do corpo resultasse da vontade de deus, não será preciso ser-se doutorado em lõgica transcendental para perceber que quem diz uma cousa, diz a outra, Eminência, por favor, creia-me, foi uma simples frase de efeito destinada a impressionar, um remate de discurso, nada mais, bem sabe que a política tem destas necessidades, Também a igreja as tem, senhor primeiro-ministro, mas nós ponderamos muito antes de abrir a boca, não falamos por falar, calculamos os efeitos à distância, a nossa especialidade, se quer que lhe dê uma imagem para compreender melhor, é a balística, Estou desolado, eminência, No seu lugar também estaria. Como se estivesse a avaliar o tempo que a granada levaria a cair, o cardeal fez uma pausa , depois, em tom mais suave, mais cordial, continuou, Gostaria de saber se o senhor primeiro-ministro levou a declaração ao conhecimento de sua majestade antes de a ler aos meios de comunicação social, Naturalmente, eminência, tratando-se de um assunto de tanto melindre, E que disse o rei, se não é segredo de estado, Pareceu-lhe bem, Fez algum comentário ao terminar, Estupendo, Estupendo, quê, Foi o que sua majestade me disse, estupendo, Quer dizer que também blasfemou, Não sou competente para formular juízos dessa natureza, eminência, viver com os meus próprios erros já me dá trabalho suficiente, Terei de falar ao rei, recordar-lhe que, em uma situação como esta, tão confusa, tão delicada, só a observância fiel e sem desfalecimento das provadas doutrinas de nossa santa madre igreja poderá salvar o país do pavoroso caos que nos vai cair em cima, Vossa eminência decidirá, está no seu papel, ........ Estou quase a chegar a casa, eminência, mas, se me dá licença, ainda gostaria de lhe pôr uma breve questão, Diga, Que irá fazer a igreja se nunca mais ninguém morrer, Nunca mais é demasiado tempo, mesmo tratando-se da morte, senhor primeiro-ministro, Creio que não me respondeu, eminência, Devolvo-lhe a pergunta, que vai fazer o estado se nunca mais ninguém morrer, O estado tentará sobreviver, ainda que eu muito duvide de que venha a conseguir, mas a igreja, A igreja, senhor primeiro-ministro, habituou-se de tal maneira às respostas eternas que não posso imaginá-la a dar outras, Ainda que a realidade as contradiga, Desde o principio que nós não temos feito outra cousa que contradizer a realidade, e aqui estamos, Que dirá o papa, Se eu fosse, perdoe-me deus a estulta vaidade de pensar-me tal, mandaria pôr imediatamente em circulação uma nova tese, a da morte adiada, Sem mais explicações, À igreja nunca se lhe pediu que explicasse fosse que fosse, a nossa outra especialidade, além da balística, tem sido neutralizar, pela fé, o espírito curioso,...."
Referência
SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo:Companhia das Letras, 2005. p.17-20.
Formação
Meu comentário
A esta já tão conturbada vida de buscas e perdas, de encontros e desencontros, José Saramago tráz mais uma valiosa contribuição sobre o homem, a sociedade e a democracia, tendo como eixo gravitacional a formação universitária.
Estes dois escritos chamados Formação (1) e Formação (2) extraídos do seu blog direto com o título de Cadernos de Saramago valem a pena serem lidos e relidos para acrescentar às nossas ferramentas intelectuais mais potência para reflexão.
A esta já tão conturbada vida de buscas e perdas, de encontros e desencontros, José Saramago tráz mais uma valiosa contribuição sobre o homem, a sociedade e a democracia, tendo como eixo gravitacional a formação universitária.
Estes dois escritos chamados Formação (1) e Formação (2) extraídos do seu blog direto com o título de Cadernos de Saramago valem a pena serem lidos e relidos para acrescentar às nossas ferramentas intelectuais mais potência para reflexão.
Éramos assim, ...
Meu comentário
Ainda na obra As pequenas memórias, Saramago nos passa um pouco do que eram formados os seus, por dentro e por fora. Nesta passagem, ele conta a resposta obtida da sua tia ao perguntar, tempos depois, por seu primo, colega de infância, José Dinis e, em seguida a reflexão.
Transcrição do livro
"O José Dinis morreu novo. Os anos dourados da infância tinham acabado, cada um de nós teve de ir à sua vida, e um dia, passado o tempo, estando eu na Azinhaga, perguntei à tia Maria Elvira: 'Que é feito do José Dinis?' E ela, sem mais palavras, respondeu: 'O José Dinis morreu.' Éramos assim, feridos por dentro, mas duros por fora. As coisas são o que são, agora se nasce, logo se vive, por fim se morre, não vale a pena dar-lhe mais voltas, o José Dinis veio e passou, choraram-se umas lágrimas na ocasião, mas o certo é que a gente não pode levar a vida a chorar os mortos."
Referência
SARAMAGO, José. As pequenas memórias. São Paulo:Companhia das Letras, 2006. p.136.
Ainda na obra As pequenas memórias, Saramago nos passa um pouco do que eram formados os seus, por dentro e por fora. Nesta passagem, ele conta a resposta obtida da sua tia ao perguntar, tempos depois, por seu primo, colega de infância, José Dinis e, em seguida a reflexão.
Transcrição do livro
"O José Dinis morreu novo. Os anos dourados da infância tinham acabado, cada um de nós teve de ir à sua vida, e um dia, passado o tempo, estando eu na Azinhaga, perguntei à tia Maria Elvira: 'Que é feito do José Dinis?' E ela, sem mais palavras, respondeu: 'O José Dinis morreu.' Éramos assim, feridos por dentro, mas duros por fora. As coisas são o que são, agora se nasce, logo se vive, por fim se morre, não vale a pena dar-lhe mais voltas, o José Dinis veio e passou, choraram-se umas lágrimas na ocasião, mas o certo é que a gente não pode levar a vida a chorar os mortos."
Referência
SARAMAGO, José. As pequenas memórias. São Paulo:Companhia das Letras, 2006. p.136.
Céptico. Ou nem tanto?
Meu comentário
Neste trecho, ainda da obra As pequenas memórias, Saramago expõe como talvez tenha sido, nesta época, a sua adoção da linha céptica em relação à crença religiosa. Ora ele troça dos seres míticos, ora ele atribui a eles a intervenção do próprio salvamento de alguma situação que poderia ter se dado com um final muito pior. Nos deixa, creio eu, uma grande dúvida da sua alma, como lhe convém fazer jogar com a inteligência e percepção livre de cada um de nós.
Transcrição do livro
"Realidade também, e das duríssimas, foi aquele trombalhão que dei na Avenida Casal Ribeiro, ali ao lado da Rua Fernão Lopes, em dias que deveriam ser propícios tanto à caridade humana como à benevolência celestial, pois era por ocasião do Santo António, defensor das causas justas e protector por excelência dos olvidados, onde quer que se encontrem. A não ser (hipótese a considerar) que a bruta queda tenha sido consequência de uma mesquinha vingança da santa personagem quando percebeu que o tostãozinho que eu andava a pedir aos transeuntes se destinava à compra de rebuçados e subsequente satisfação do pecado da gula, e não ao culto do altarzinho armado à entrada da porta do prédio, chamariz para as boas almas, piedosas ou laicas. Foi o lamentável caso de que andava eu, em competição com colegas da vizinhança, a entoar a ladainha de sempre: 'Um tostãozinho para o Santo António, um tostãozinho para o Santo António', quando vejo passar no outro lado da Avenida Casal Ribeiro um senhor de avançada idade, trajado de escuro, de chapéu e bengala, como não era raro encontrar-se pelas ruas de Lisboa naqueles primitivos tempos. Vê-lo e largar a correr para me antecipar a uma ofensiva dos concorrentes que andavam na mesma safra, foi obra de um santiámen. A avenida estava em obras, o pavimento tinha sido levantado (creio que andavam a substituir por alcatrão as velhas pedras irregulares de basalto), e o que havia no chão era uma brita grossa capaz de esfolar um crocodilo. Aí tropecei aí caí, aí deitei abaixo um joelho, e quando por fim consegui levantar-me, já com sangue a escorrer-me pela perna abaixo, o senhor de idade olhou para mim, fez cara de fingida pena e continuou o seu passeio talvez a pensar nos netos queridos, tão diferentes destes rapazes da rua sem educação. A chorar por causa das dores no joelho, mas também por causa da humilhação que tinha sido ir cair aos pés de uma pessoa que não havia feito o menor gesto para me ajudar a levantar, lá me arrastei até casa, onde minha mãe me curou com a inevitável tintura de iodo e uma ligadura apertadíssima que durante uns dias me deixou sem serventia as dobradiças do joelho. É bem possível, agora que o estou pensando, que o penoso sucesso tivesse sido a causa de haver abandonado pelo caminho a minha incipiente educação religiosa. Morava no mesmo prédio, salvo erro no segundo andar esquerdo, uma família muito católica (pai, mãe, filho e filha), e a senhora da casa convenceu a Senhora Piedade a permitir que me iniciassem nos segredos da igreja em geral e da eucaristia em particular. Em suma, queriam levar-me à missa. Minha mãe disse sim minha senhora, agradeceu a atenção que os simpáticos e distintos vizinhos estavam a dar ao filho, mas, conhecendo-a como depois a conheci, céptica por indiferença, salvo nos últimos tempos de vida quando, já viúva, passou a frequentar a igreja com as amigas do bairro, calculo que o consentimento foi dado com o mesmo empenho com que me teria deixado ir à praia com aqueles ou outros vizinhos. O problema que tenho a resolver agora é se isto sucedeu antes ou depois da queda. Fosse como fosse, e apesar de me sentarem com eles no banco da frente, a minha assistência à igreja, uma ou duas vezes, não havia prometido muito. Quando o sacristão tocava a sineta e os fiéis baixavam obedientes a cabeça, não resisti a torcer ligeiramente o pescoço e espreitar com dissímulo para ver o que é que se estaria a passar ali que não devesse ser visto. Voltando ao problema, à queda, se ela sucedeu antes significa que quando me levaram à missa eu já iria de pé atrás, decepcionado com um santo e disposto a acreditar que todos os outros eram iguais. Se foi depois que aconteceu, então o estatelamento podia ser entendido como um castigo pelo meu abandono do recto caminho que deveria levar-me ao paraíso, hipótese em que Deus se teria portado vergonhosamente, como um intolerante de marca maior que se pagava à bruta de uma pequena desfeita, sem ter em conta os meus poucos anos de aprendiz de pagão. Nunca o saberei. Não devo esquecer, porém, que, ao menos uma vez as potestades celestes velaram por mim e por dois companheiros meus também residentes na Rua Fernão Lopes. Tinha encontrado em casa, já não me lembro como, um cartucho de caça que levei para mostrar aos amigos, e não só para mostrar, pois, tremendo de excitação, como conspiradores, reunimo-nos numa escada próxima e abrimo-lo para extrair o que havia dentro, a pólvora e os grãos de chumbo. Sentados nos degraus de pedra da entrada, rodeávamos o montinho de pólvora para ver o que acontecia se lhe chegássemos um fósforo. A deflagração foi modesta, mas suficiente para que apanhássemos um susto. E se não ficámos com a cara ou as mãos queimados foi certamente porque Santo António, ou um dos seus muitos colegas do empíreo, interpõs entre nós e a explosão a sua mão taumatúrgica e providencial. Assim como assim, antes a ferida do joelho."
Referência
SARAMAGO, José. As pequenas memórias. São Paulo:Companhia das Letras, 2006. p. 62-65.
Neste trecho, ainda da obra As pequenas memórias, Saramago expõe como talvez tenha sido, nesta época, a sua adoção da linha céptica em relação à crença religiosa. Ora ele troça dos seres míticos, ora ele atribui a eles a intervenção do próprio salvamento de alguma situação que poderia ter se dado com um final muito pior. Nos deixa, creio eu, uma grande dúvida da sua alma, como lhe convém fazer jogar com a inteligência e percepção livre de cada um de nós.
Transcrição do livro
"Realidade também, e das duríssimas, foi aquele trombalhão que dei na Avenida Casal Ribeiro, ali ao lado da Rua Fernão Lopes, em dias que deveriam ser propícios tanto à caridade humana como à benevolência celestial, pois era por ocasião do Santo António, defensor das causas justas e protector por excelência dos olvidados, onde quer que se encontrem. A não ser (hipótese a considerar) que a bruta queda tenha sido consequência de uma mesquinha vingança da santa personagem quando percebeu que o tostãozinho que eu andava a pedir aos transeuntes se destinava à compra de rebuçados e subsequente satisfação do pecado da gula, e não ao culto do altarzinho armado à entrada da porta do prédio, chamariz para as boas almas, piedosas ou laicas. Foi o lamentável caso de que andava eu, em competição com colegas da vizinhança, a entoar a ladainha de sempre: 'Um tostãozinho para o Santo António, um tostãozinho para o Santo António', quando vejo passar no outro lado da Avenida Casal Ribeiro um senhor de avançada idade, trajado de escuro, de chapéu e bengala, como não era raro encontrar-se pelas ruas de Lisboa naqueles primitivos tempos. Vê-lo e largar a correr para me antecipar a uma ofensiva dos concorrentes que andavam na mesma safra, foi obra de um santiámen. A avenida estava em obras, o pavimento tinha sido levantado (creio que andavam a substituir por alcatrão as velhas pedras irregulares de basalto), e o que havia no chão era uma brita grossa capaz de esfolar um crocodilo. Aí tropecei aí caí, aí deitei abaixo um joelho, e quando por fim consegui levantar-me, já com sangue a escorrer-me pela perna abaixo, o senhor de idade olhou para mim, fez cara de fingida pena e continuou o seu passeio talvez a pensar nos netos queridos, tão diferentes destes rapazes da rua sem educação. A chorar por causa das dores no joelho, mas também por causa da humilhação que tinha sido ir cair aos pés de uma pessoa que não havia feito o menor gesto para me ajudar a levantar, lá me arrastei até casa, onde minha mãe me curou com a inevitável tintura de iodo e uma ligadura apertadíssima que durante uns dias me deixou sem serventia as dobradiças do joelho. É bem possível, agora que o estou pensando, que o penoso sucesso tivesse sido a causa de haver abandonado pelo caminho a minha incipiente educação religiosa. Morava no mesmo prédio, salvo erro no segundo andar esquerdo, uma família muito católica (pai, mãe, filho e filha), e a senhora da casa convenceu a Senhora Piedade a permitir que me iniciassem nos segredos da igreja em geral e da eucaristia em particular. Em suma, queriam levar-me à missa. Minha mãe disse sim minha senhora, agradeceu a atenção que os simpáticos e distintos vizinhos estavam a dar ao filho, mas, conhecendo-a como depois a conheci, céptica por indiferença, salvo nos últimos tempos de vida quando, já viúva, passou a frequentar a igreja com as amigas do bairro, calculo que o consentimento foi dado com o mesmo empenho com que me teria deixado ir à praia com aqueles ou outros vizinhos. O problema que tenho a resolver agora é se isto sucedeu antes ou depois da queda. Fosse como fosse, e apesar de me sentarem com eles no banco da frente, a minha assistência à igreja, uma ou duas vezes, não havia prometido muito. Quando o sacristão tocava a sineta e os fiéis baixavam obedientes a cabeça, não resisti a torcer ligeiramente o pescoço e espreitar com dissímulo para ver o que é que se estaria a passar ali que não devesse ser visto. Voltando ao problema, à queda, se ela sucedeu antes significa que quando me levaram à missa eu já iria de pé atrás, decepcionado com um santo e disposto a acreditar que todos os outros eram iguais. Se foi depois que aconteceu, então o estatelamento podia ser entendido como um castigo pelo meu abandono do recto caminho que deveria levar-me ao paraíso, hipótese em que Deus se teria portado vergonhosamente, como um intolerante de marca maior que se pagava à bruta de uma pequena desfeita, sem ter em conta os meus poucos anos de aprendiz de pagão. Nunca o saberei. Não devo esquecer, porém, que, ao menos uma vez as potestades celestes velaram por mim e por dois companheiros meus também residentes na Rua Fernão Lopes. Tinha encontrado em casa, já não me lembro como, um cartucho de caça que levei para mostrar aos amigos, e não só para mostrar, pois, tremendo de excitação, como conspiradores, reunimo-nos numa escada próxima e abrimo-lo para extrair o que havia dentro, a pólvora e os grãos de chumbo. Sentados nos degraus de pedra da entrada, rodeávamos o montinho de pólvora para ver o que acontecia se lhe chegássemos um fósforo. A deflagração foi modesta, mas suficiente para que apanhássemos um susto. E se não ficámos com a cara ou as mãos queimados foi certamente porque Santo António, ou um dos seus muitos colegas do empíreo, interpõs entre nós e a explosão a sua mão taumatúrgica e providencial. Assim como assim, antes a ferida do joelho."
Referência
SARAMAGO, José. As pequenas memórias. São Paulo:Companhia das Letras, 2006. p. 62-65.
O sobrenome Saramago
Meu comentário
Neste trecho do livro As Pequenas Memórias (2006), José Samarago explica como e porque teve o sobrenome Saramago adicionado ao seu nome que deveria ter sido simplesmente José de Souza como era o desejo de seu pai, mas não compartilhado pelo travesso destino.
Transcrição do livro
“Contei noutro lugar como e porquê me chamo Saramago. Que esse Saramago não era um apelido do lado paterno, mas sim a alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Que indo meu pai a declarar no Registro Civil da Golegã o nascimento do seu segundo filho, sucedeu que o funcionário (chamava-se ele Silvino) estava bêbado (por despeito, disso o acusaria sempre meu pai), e que, sob os efeitos do álcool e sem que ninguém tivesse apercebido da onomástica fraude, decidiu, por sua conta e risco, acrescentar Saramago ao lacónico José de Sousa que meu pai pretendia que eu fosse. E que, desta maneira, finalmente, graças a uma intervenção por todas as mostras divina, refiro-me, claro está, a Baco, deus do vinho e daqueles que se excedem a bebê-lo, não precisei de inventar um pseudónimo para, futuro havendo, assinar os meus livros. Sorte, grande sorte minha, foi não ter nascido em qualquer das famílias da Azinhaga que, naquele tempo e por muitos anos mais, tiveram de arrastar as obscenas alcunhas de Pichatada, Curroto e Caralhana. Entrei na vida marcado com este apelido de Saramago sem que a família o suspeitasse, e foi só aos sete anos, quando, para me matricular na instrução primária, foi necessário apresentar certidão de nascimento, que a verdade saiu nua do poço burocrático, com grande indignação de meu pai, a quem, desde que se tinha mudado para Lisboa, a alcunha desgostava. Mas o pior de tudo foi quando, chamando-se ele unicamente José de Sousa, como ver se podia nos seus papéis, a Lei, severa, desconfiada, quis saber por que bulas tinha ele então um filho cujo nome completo era Jose de Sousa Saramago. Assim intimado, e para que tudo ficasse no próprio, no são e no honesto, meu pai não teve outro remédio que proceder a uma nova inscrição do seu nome, passando a chamar-se, ele também, José de Sousa Saramago. Suponho que deverá ter sido este o único caso, na história da humanidade, em que foi o filho a dar o nome ao pai. Não nos serviu de muito, nem a nós nem a ela, porque meu pai, firme nas suas antipatias, sempre quis e conseguiu que o tratassem unicamente de Sousa.”
Referência
SARAMAGO, José. As pequenas memórias. São Paulo:Companhia das Letras, 2006. p. 43-44.
Neste trecho do livro As Pequenas Memórias (2006), José Samarago explica como e porque teve o sobrenome Saramago adicionado ao seu nome que deveria ter sido simplesmente José de Souza como era o desejo de seu pai, mas não compartilhado pelo travesso destino.
Transcrição do livro
“Contei noutro lugar como e porquê me chamo Saramago. Que esse Saramago não era um apelido do lado paterno, mas sim a alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Que indo meu pai a declarar no Registro Civil da Golegã o nascimento do seu segundo filho, sucedeu que o funcionário (chamava-se ele Silvino) estava bêbado (por despeito, disso o acusaria sempre meu pai), e que, sob os efeitos do álcool e sem que ninguém tivesse apercebido da onomástica fraude, decidiu, por sua conta e risco, acrescentar Saramago ao lacónico José de Sousa que meu pai pretendia que eu fosse. E que, desta maneira, finalmente, graças a uma intervenção por todas as mostras divina, refiro-me, claro está, a Baco, deus do vinho e daqueles que se excedem a bebê-lo, não precisei de inventar um pseudónimo para, futuro havendo, assinar os meus livros. Sorte, grande sorte minha, foi não ter nascido em qualquer das famílias da Azinhaga que, naquele tempo e por muitos anos mais, tiveram de arrastar as obscenas alcunhas de Pichatada, Curroto e Caralhana. Entrei na vida marcado com este apelido de Saramago sem que a família o suspeitasse, e foi só aos sete anos, quando, para me matricular na instrução primária, foi necessário apresentar certidão de nascimento, que a verdade saiu nua do poço burocrático, com grande indignação de meu pai, a quem, desde que se tinha mudado para Lisboa, a alcunha desgostava. Mas o pior de tudo foi quando, chamando-se ele unicamente José de Sousa, como ver se podia nos seus papéis, a Lei, severa, desconfiada, quis saber por que bulas tinha ele então um filho cujo nome completo era Jose de Sousa Saramago. Assim intimado, e para que tudo ficasse no próprio, no são e no honesto, meu pai não teve outro remédio que proceder a uma nova inscrição do seu nome, passando a chamar-se, ele também, José de Sousa Saramago. Suponho que deverá ter sido este o único caso, na história da humanidade, em que foi o filho a dar o nome ao pai. Não nos serviu de muito, nem a nós nem a ela, porque meu pai, firme nas suas antipatias, sempre quis e conseguiu que o tratassem unicamente de Sousa.”
Referência
SARAMAGO, José. As pequenas memórias. São Paulo:Companhia das Letras, 2006. p. 43-44.
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